O fim da maioria absoluta do PS coloriu o novo mapa dos círculos eleitorais, tradicionalmente só rosa-laranja, pois tanto o CDS (a surpresa destas eleições) como o BE elegeram deputados em mais de metade do País.
Sócrates pode sorrir, apesar de ter perdido meio milhão de votos e, sobretudo, a maioria absoluta que lhe permitia governar à sua maneira: venceu à direita e à esquerda. Falhou a reedição da maioria absoluta de 2005, mas esse resultado tinha sido invulgar, porque em 2005 o PSD só ganhou na Madeira e em Leiria - e, agora, naturalmente, Viseu, Aveiro ou Vila Real voltaram ao estatuto de bastiões laranjas. Mas o resto do mapa nacional (apesar da taxa de desemprego, do protesto dos professores, do caso Freeport), mesmo pintalgado pelos pequenos, que elegeram deputados onde menos se esperava, continua a ser rosa.
O resultado de Manuela Ferreira Leite, após o triunfo nas europeias que as sondagens "escondiam", é uma das marcas deste triunfo socialista. Quando "chegou a hora da verdade" , como se lia nos seus cartazes, teve apenas mais sete mil votos que Santana Lopes (embora ainda faltem contar os do estrangeiro). E se a líder fala nas três eleições deste ciclo - venceu para o PE e espera manter a tradição de ganhar as autárquicas (até porque em concelhos como Lisboa, Porto e Coimbra o PSD está coligado com o CDS) - os barões dificilmente resistirão a pedir-lhe contas após as municipais.
E, contrariando todas as sondagens, o outro vencedor da noite foi o CDS. Pouco importando se beneficiou ou não de algum eleitorado laranja desencantado, Paulo Portas até ultrapassou as suas expectativas: não só voltou a ser a terceira força política, com um resultado acima dos dois dígitos, como elegeu deputados em círculos "improváveis" (Coimbra, Faro, Madeira) e tornou-se o único pequeno a fazer maioria com o PS.
Em contrapartida, à esquerda da esquerda, apesar dos discursos de Francisco Louçã e de Jerónimo de Sousa, as vitórias sabem a pouco - e Sócrates ganhou aos que pareciam ir beneficiar das megamanifestações da CGTP. O BE ultrapassou o meio milhão de votos e ganhou dimensão nacional, elegendo em metade dos círculos do Continente. O PCP subiu em votos e elegeu mais um deputado. Mas só juntos (num país sem tradição de frentes de esquerda) podem garantir maioria ao PS.
Agora, tudo está em aberto, com Sócrates a poder hesitar entre Portas e Louçã-Jerónimo. E os tempos que aí vêm são para quem gosta da política pura.
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